terça-feira, 15 de agosto de 2017

A mudança vem de dentro


"A mudança é algo que começa de dentro para fora e reveste-se de uma consciência profunda sobre a necessidade de procuramos formas de equilíbrio e de bem-estar pessoal. A nossa forma de pensar, de ver as coisas, de as sentir, altera completamente a forma como captamos o mundo exterior. Nesta alteração, desenvolve-se parte dos nossos relacionamentos com o Outro e infelizmente, neste jogo, quase ninguém conhece as regras. É necessário vermo-nos por dentro, para disfrutarmos do que esta cá fora. Para, no final das contas, conseguirmos ter relações com tudo o que nos rodeia, já que é disso que se trata. 

Deixamos de disfrutar da leitura de um livro, para estarmos a competir num mundo onde a energia masculina impera, deixamos de cuidar de nós, para estarmos alerta num espaço onde o afeto pode ser o elo mais fraco, deixamos de conversar, para apenas falar, deixamos sobretudo de ouvir, para escutarmos. A polaridade que inverte a sensibilidade para o que de mais rude absorvemos, dá-nos a falsa segurança de que nos protegemos de investidas desleais, de movimentos em falso, de valores de juízos. Deixamos de exercitar as emoções, para preferir o desapego. Com o tempo, percebemos que estamos doentes, não física, mas emocionalmente. Concluímos, tarde demais, que desperdiçamos tempo e energia vital com uma forma de vida menor: menor na intensidade, menor na sua expressão, menor na sua condição, menor na sua longevidade. 

Estar atento, colocar-se no lugar do outro, ver o mundo lá fora como reflexo do nosso universo interior, dar valor às nossas emoções, respeitar a dos outros, distribuir afetos e saber receber, mostrar gratidão, não ter pressa, saber esperar, aceitar, reconhecer o choro são estratégias de desenvolvimento Yin."

Trecho daqui




terça-feira, 8 de agosto de 2017

Terapia contra as compras compulsivas por Livros


"Depois de passar há uns meses por uma terrível crise das prateleiras, e logo depois atravessar uma crise bem pior ao encaixotar toda minha biblioteca por causa da mudança, pousei em Barcelona no comecinho de setembro com o firme propósito de voltar a utilizar a rede de bibliotecas públicas da cidade. Fazia, pelo menos, sete ou oito anos que eu não utilizava a carteirinha, mais que os três anos que morei no Brasil, pois depois de uma primeira fase de uso intensivo das bibliotecas, eu tinha virado um CCL (um Comprador Compulsivo de Livros), uma das espécies mais perigosas e letais de MCC (Monstros Consumistas Culturais).

Preparei minha volta às bibliotecas públicas fazendo uma lavagem cerebral, segundo a qual o importante não era ser um CCL, mas um LCL (um Leitor Compulsivo de Livros). Felizmente, e contra todo prognóstico, minha carteirinha ainda funcionava, então comecei a passear entre as prateleiras da biblioteca mais próxima de minha casa na procura dos livros que levaria. Nessa primeira visita, da qual trouxe o maravilhoso Tirana memoria, do escritor salvadorenho Horacio Castellanos Moya, um dos escritores mais interessantes da atualidade, e nas seguintes, uma vez ativada a rotina de ir à biblioteca para devolver os livros e levar novos, acabei criando uma terapia que talvez seja útil para quem, devido a motivos econômicos, amorosos, psicológicos ou de espaço nas prateleiras, precisa abandonar sua condição de CCL e entrar no mais saudável mundo dos LCL.

É o que eu chamo da “terapia jotapê contra o vício do Consumo Compulsivo de Livros”. Se você foi diagnosticado com essa doença (e se já superou a fase de negação), pode usar as seguintes sugestões. Eu garanto resultados em menos de três visitas à biblioteca pública.

1. “Todos esses livros são meus”. Esse pensamento é a base de toda a terapia. Se você não consegue acreditar verdadeiramente nele será impossível abandonar a compulsão do consumo. Tente o seguinte: passear entre os corredores da biblioteca imaginando que você está em casa e que pode pegar qualquer livro que quiser e ler. Enquanto passeia, repita mentalmente, uma vez e outra, como se fosse um mantra: “todos esses livros são meus, todos esses livros são meus, todos esses livros são meus”. Você acha que sou maluco? Nada mais longe disso: você realmente pode pegar qualquer livro e ler, a biblioteca é pública, é de todos, o que quer dizer, a efeitos práticos, que todos esses livros são meus e de todo mundo.

1.1. Muito importante: não diga que todos os livros são seus em voz alta, ninguém quer acabar no hospital psiquiátrico (onde, aliás, entre outros muitos inconvenientes, não há boas bibliotecas).

2. Leve sempre mais de um livro para casa. Se a biblioteca permite levar três livros, leve três. Se cinco, cinco. Siga a seguinte regra: levar um livro que você quer muito ler, mas muito, muito mesmo (e que, de fato, você vai ler); leve outro(s) livro(s) que você acha que gostaria de ler (aqueles livros que alguém recomendou ou que receberam boas críticas); e leve sempre, no mínimo, um livro de um grandíssimo escritor, de um clássico universal ou de um autor de culto. Assim, você conseguirá reproduzir em casa o mesmo clima criado pelo Consumo Compulsivo de Livros sem consumir: você vai ler o livro que queria muito ler, você vai dar uma olhadinha no(s) livro(s) que você achava que ia gostar de ler (e provavelmente vai ler um deles, mas só provavelmente), e (importantíssimo) você vai sentir a culpa de não ler esse Proust ou Sófocles que estará atormentando você desde algum canto da casa.

3. Quando o demônio do Consumo atacar: PEGUE OS LIVROS E VOLTE PARA A BIBLIOTECA CORRENDO. E não esqueça, assim que estiver entre as prateleiras, repita mentalmente: “todos esses livros são meus, todos esses livros são meus”.

4. Faça alguma coisinha nos livros que você lê, sem estragar o livro, por favor. Sublinhe uma frase com lápis, dobre o canto de uma folha, “esqueça” um recibo ou um bilhete entre as páginas.

5. Se você se encontrar na biblioteca com algum amigo ou conhecido por casualidade, atue como se fosse o anfitrião, mostre o espaço, faça sugestões de leitura, dê dicas. Tenha cuidado de não utilizar a primeira pessoa nas explicações (ver ponto 1.1).

6. Passe intencionalmente pela prateleira da biblioteca onde fica algum dos livros que você leu. Faça de conta que foi uma casualidade, leia as lombadas dos livros vizinhos e quando chegar ao livro lido, sinta esse arrepio de felicidade: “esse eu já li”.

7. Se você está passando por uma crise de abstinência de consumo, pegue o livro lido (ver ponto 6) e dê uma folheada: o que você tiver feito nesse livro (ver ponto 4) incrementará a sensação de que esse livro, e todos os livros da biblioteca, é seu.

8. Aproveite para socializar. Se você descobrir uma pessoa com os dedos na lombada de um Gombrowicz, de um Sérgio Sant’Anna ou de um César Aira, o que você está esperando para puxar conversa!? Não é todo dia que você encontra um desconhecido interessante passeando entre as prateleiras da sua casa.

9. Como resultado de tudo o que foi exposto anteriormente, vire um UCB, um Usuário Compulsivo da Biblioteca.

Imagino que alguns leitores desta coluna estarão pensando: claro, você disse isso porque você está morando em Barcelona, onde as bibliotecas públicas são ótimas, e na América Latina não é bem assim etc. Mas isso é uma meia-verdade: eu, pelo menos, antes de estar viciado em CCL, usei muito as bibliotecas públicas do México e também a bibliotequinha de Sousas, em Campinas, onde meus filhos tinham carteirinha e a gente ia ler.

É verdade que as bibliotecas públicas do México e do Brasil poderiam ser bem melhores, mas o jeito mais eficaz de ajudar nessa melhora é justamente esse: utilizá-las. E se não tem uma boa biblioteca perto de casa ou do trabalho, não é hora de começar a se organizar para pedir uma à prefeitura da cidade?

Já dizia minha avó, que estava além das ideologias, mas era muito sábia: a felicidade é pública, a tristeza é privada."






domingo, 25 de junho de 2017

Devemos nos esforçar para ser como a lua


"Devemos nos esforçar para ser como a lua. 
Um ancião em Kabati sempre repetia essa frase para as pessoas que passavam
por sua casa para buscar água, caçar ou colher seiva nas palmeiras, e também
aos que caminhavam de volta a suas fazendas. Eu me lembro de ter perguntado
a minha avó o que o ancião queria dizer com aquilo.

Ela explicou que o ditado servia para lembrar as pessoas de se comportarem
sempre da melhor maneira possível e serem boas umas com as outras.
Ela disse que as pessoas reclamam quando o sol as castiga demais
e está intoleravelmente quente, e também quando chove demais ou está frio.

Mas ela falou, ninguém se queixa quando a lua brilha. Todos ficam felizes
e apreciam a lua, cada um a seu modo. 
As crianças brilham com suas sombras sob a luz da lua,
as pessoas se juntam para contar histórias e dançar noite adentro. 
Muitas coisas boas acontecem quando a lua brilha. 

Essas são algumas das razões pelas quais devemos desejar ser como a lua".

Do livro Muito Longe de casa - Memórias de um Menino-Soldado
de Ishmael Beah





domingo, 18 de junho de 2017

Você é



"Você é os brinquedos que brincou, as gírias que usava, você é os nervos à flor da pele no vestibular, os segredos que guardou, você é sua praia preferida, Garopaba, Maresias, Ipanema, você é o renascido depois do acidente que escapou, aquele amor atordoado que viveu, a conversa séria que teve um dia com seu pai, você é o que você lembra. 

Você é a saudade que sente da sua mãe, o sonho desfeito quase no altar, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora, você é aquilo que foi amputado no passado, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas, você é o que você chora. 

Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa, você é o pêlo do braço que eriça, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta, você é as palavras ditas para ajudar, os gritos destrancados da garganta, os pedaços que junta, você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo, você é o que você desnuda. 

Você é a raiva de não ter alcançado, a impotência de não conseguir mudar, você é o desprezo pelo o que os outros mentem, o desapontamento com o governo, o ódio que tudo isso dá, você é aquele que rema, que cansado não desiste, você é a indignação com o lixo jogado do carro, a ardência da revolta, você é o que você queima. 

Você é aquilo que reinvidica, o que consegue gerar através da sua verdade e da sua luta, você é os direitos que tem, os deveres que se obriga, você é a estrada por onde corre atrás, serpenteia, atalha, busca, você é o que você pleiteia. 

Você não é só o que come e o que veste. Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê. Você é o que ninguém vê.

Martha Medeiros



terça-feira, 23 de maio de 2017

É possível ser mais leve?


Dias desses, buscando uma interessante e nova leitura, no site da Amazon, me deparei
com uma promoção no livro, Que ninguém nos ouça: Terapia Virtual entre duas mulheres,
de Cris Guerra e Leila Ferreira. Duas mulheres que trocam emails, falando sobre a vida,
suas dores, pensamentos e sentimentos. Adorei! Buscando mais informações sobre ambas,
encontrei uma entrevista com a Leila Ferreira no site Vivo Mais Saudável e achei interessante
alguns trechos, que compartilho aqui com vocês.

"VMS: Como conseguir ter mais leveza e carregar o "peso" da vida?

Leila Ferreira: Antes de mais nada, é preciso deixar claro que aprender a ser leve não é fácil. Mas é possível. Não a leveza dos livros de ficção ou dos filmes adocicados: essa, felizmente, está fora do nosso alcance, porque, do contrário, viver seria um tédio, uma "sessão da tarde" sem fim.

A leveza a que me refiro é aquela que convive com as angústias, as perdas, as frustrações cotidianas e as dificuldades muitas vezes gigantescas que fazem parte do viver. Ser leve não é se alienar. É ter em conta que a condição humana é precária, a vida é muito complexa, mas, mesmo assim, ou exatamente por isso, precisamos desenvolver mecanismos para reduzir o peso que carregamos dentro de nós.

Andamos obcecados com o peso do corpo - a ele estamos sempre atentos. Mas nossas almas andam obesas. Estamos cada vez mais estressados, ríspidos, intolerantes, ou seja, corremos o risco de ficar com corpos esbeltos e obesidade mórbida de espirito.

VMS: E como reduzir essa carga interior?

Leila Ferreira: Cada um vai achar seu caminho. Mas acho que, qualquer que seja esse caminho, ele começa por uma reflexão, uma tomada de consciência. Temos vivido no piloto automático, sem pausas para refletir, e nessa correria desenfreada é muito fácil adotar comportamentos que nos fazem mal, nos adoecem emocionalmente. 

VMS: O que é felicidade para você?

Leila Ferreira: Acho que a melhor definição de felicidade que eu já vi foi uma frase escrita em um outdoor, em Paris: "A felicidade é a soma das pequenas felicidades". A partir dessa frase, meu conceito mudou. Eu vivia esperando aquela felicidade em letras maiúsculas, com vários pontos de exclamação. 

Hoje acredito numa felicidade discreta, modesta, uma felicidade homeopática, administrada em bolinhas quase imperceptíveis. Um pôr de sol aqui, um café recém-coado ali, uma paixão que nos pega de surpresa, uma amiga que nos faz rir... tudo isso, somado, pode levar à felicidade. Pode, que fique claro. Porque para a felicidade não existem garantias.

VMS: O que deixa a Leila Ferreira em paz?

Leila Ferreira: Antes de mais nada, um bom livro. Quando leio uma história que me apaixona (principalmente os livros policiais), o mundo real deixa de existir e, como o mundo real não anda fácil, "fugir" dele por algumas horas nos acalma. "

Pra quem quiser ler a entrevista inteira é só clicar aqui e a Cris Guerra também
tem um site, aqui
O livro? Ainda estou lendo, mas adorei o estilo e as conversas por email



sábado, 13 de maio de 2017

Mãe é de graça!


"É bom ter mãe quando se é criança, e também é bom quando se é adulto. Quando se é adolescente a gente pensa que viveria melhor sem ela, mas é um erro de avaliação. Mãe é bom em qualquer idade. Sem ela, ficamos órfãos de tudo, já que o mundo lá fora não é nem um pouco maternal conosco.
O mundo não se importa se estamos desagasalhados e passando fome. Não liga se viramos a noite na rua, não dá a mínima se estamos acompanhados por maus elementos. 
O mundo quer defender o seu, não o nosso. 

O mundo quer que a gente torre nossa grana, que a gente compre um apartamento que vai nos deixar endividados, que a gente ande na moda, que a gente troque de carro, que a gente tenha boa aparência e estoure o cartão de crédito. Mãe também quer que a gente tenha boa aparência, mas está mais preocupada com o nosso banho, nossos dentes, nossos ouvidos, com a nossa limpeza interna: não quer que a gente se drogue, que a gente fume, que a gente beba. 

O mundo nos olha superficialmente. Não detecta nossa tristeza, nosso queixo que treme, nosso abatimento. O mundo quer que sejamos lindos, magros e vitoriosos para enfeitar a ele próprio, como se fossemos objetos de decoração do planeta. O mundo não tira nossa febre, não penteia nosso cabelo, não oferece um pedaço de bolo feito em casa. 

O mundo quer nosso voto, mas não quer atender nossas necessidades. O mundo, quando não concorda com a gente, nos pune, nos rotula, nos exclui. O mundo não tem doçura, não tem paciência, não nos escuta. O mundo pergunta quantos eletrodomésticos temos em casa e qual é o nosso grau de instrução, mas não sabe nada dos nossos medos de infância, das nossas notas no colégio, de como foi duro arranjar o primeiro emprego. 

Mãe é de outro mundo. É emocionalmente incorreta: exclusivista, parcial, metida, brigona, insistente, dramática. Sofre no lugar da gente, se preocupa com detalhes e tenta adivinhar todas as nossas vontades, enquanto que o mundo nos exige eficiência máxima, seleciona os mais bem dotados e cobra caro pelo seu tempo. Mãe é de graça."

Feliz dia das Mães 

Martha Medeiros



terça-feira, 2 de maio de 2017

Pedras das tristezas e Pedras das alegrias


"Faça uma lista numerada das tristezas em sua vida.
Empilhe pedras que correspondam a esses números. 
Acrescente uma pedra cada vez que houver tristeza. 
Queime a lista e aprecie 
o monte de pedras por sua beleza.
Faça uma lista numerada das felicidades em sua vida.
Empilhe pedras que correspondam a esses números. 
Acrescente uma pedra cada vez que houver felicidade. 
Compare o monte de pedras
ao monte de tristeza."
(peça de limpar, yoko ono, 1996-2017)

"Esta é a obra de abertura da exposição da Yoko Ono que está em cartaz no Tomie Ohtake, aqui em São Paulo, que eu fui visitar com uns amigos no domingo (e que tem o nome que batizou a cartinha de hoje). 

Quando a vi, minha primeira reação foi a de comparar os dois montes de pedras ali dispostos aos visitantes; e minha dedução imediata, nesses milésimos de segundo entre ler as instruções e analisar as tais pedras, foi pensar que a pilha da felicidade seria maior, porque as pessoas poderiam materializar o quanto de alegrias e razões para sorrir temos nas nossas vidas (saúde, condições, afetos, recursos). 

Porém, para minha surpresa, os montes tinham praticamente o mesmo tamanho. Porque não era sobre um ser maior que o outro: era sobre reconhecermos que um não existe sem o outro. Não há tristeza sem felicidade, como não há dia sem noite, não há frio sem calor; e tantas outras forças aparentemente antagônicas que só existem porque a outra está lá, para fazer contraponto."

Nathalia Pires, Trecho tirado daqui daqui



terça-feira, 25 de abril de 2017

Os lúcidos


"Enquanto trabalho com ar de moça séria e ajuizada, minha cabeça parece uma metralhadora giratória, os pensamentos sendo disparados a esmo: digo ou não digo; fico ou não fico; tento ou não tento?  quem de mim é a sã e quem é a louca, por que ontem eu não estava a fim e hoje estou tão apaixonada, como estarei raciocinando daqui a duas horas, em linha reta ou por vias tortas? Alguém bate na porta interrompendo meus devaneios, é o zelador entregando a correspondência, eu agradeço e sorrio, gentil, demonstrando minha perfeita sanidade.

Que controle tenho eu sobre o que ainda não me aconteceu? E sobre o já acontecido, que segurança posso ter de que minha memória seja justa, de que minhas lembranças não tenham sido corrompidas? Quero e não quero a mesma coisa tantas vezes ao dia, alterno o sim e o não intimamente, tenho dúvidas impublicáveis, e ainda assim me visto com sobriedade, respondo meus e-mails e não cometo infrações de trânsito, sou confiável, sou uma doida. E essa constatação da demência que os dias nos impingem não seria lucidez das mais requintadas? É de pirar.”

Martha Medeiros  Em coisas da Vida




quinta-feira, 6 de abril de 2017

A vida não exige muito


"A nenhum de nós nesta Terra é pedido mais do que pode realizar e se nos esforçarmos para obter o que há de melhor dentro de nós, sempre guiados por nosso Eu Superior, a saúde e a felicidade serão possíveis. Mas nas horas mais escuras, quando a vitória parece impossível, lembremo-nos de que os filhos de Deus não devem nunca ter medo, que as tarefas que nossas almas nos dão são apenas as que somos capazes de realizar e que, com coragem e fé em nossa divindade interior, a vitória virá para todos os que continuam a lutar. 

Cada pessoa tem uma vida para viver, um trabalho a realizar, uma personalidade gloriosa, uma individualidade maravilhosa. Se ela compreender estas verdades e conseguir mantê-las contra todas as leis da massificação, ela superará tudo e ajudará os outros com o exemplo do seu caráter. 

A vida não exige de nós grandes sacrifícios; pede-nos apenas para fazermos a viagem com alegria no coração e sermos uma bênção àqueles que estão ao nosso redor.

Dr. Edward Bach 



segunda-feira, 20 de março de 2017

Não seja uma pessoa que você odeia



"Talvez você pode até ter alguma dúvida sobre o que fazer para agradar alguém, entrando num ciclo eterno sobre o que fazer para chamar atenção daquele alguém, por exemplo. Mas, em contrapartida, você sabe exatamente o que fazer para desagradar alguém. E sabe por quê? Porque você sabe o que você odeia. Você sabe tudo o que te tira a paciência e tudo o que te faz perder sono. Você sabe muito bem.

E é por saber tudo o que você não gosta de viver, que você não deve fazer o mesmo. Afinal, não faz sentido você dizer “vamos combinar sim” e não combinar nunca, se você odeia ouvir um “vamos combinar sim” e nunca ser combinado de fato. Não faz sentido você eventualmente mentir falando que “esqueceu que tinha compromisso” se você odeia que pareçam estar mentindo para você que há algum compromisso.

Isso é tudo o que você odeia e tudo o que você não pode ser. Você não pode reclamar se a resposta demora para chegar se você também demora para responder. Não pode reclamar se as coisas não dão certo para você, se você não move um dedo para que comecem a dar – e só vive nessa onda infinita de reclamar, reclamar e reclamar.

Não seja uma pessoa que você odeia. Não seja quem não dá a mínima em respeitar outra pessoa e o sentimento dessa outra pessoa. Não seja quem pisa em cima de qualquer consideração e faz das pessoas bonecos para brincar e guardar depois – não seja isso porque você odeia que sejam assim com você.

Não é difícil de fazer. É só não fazer o que você odeia que te façam. Não seja o motivo da raiva de alguém pelos mesmos motivos que você não gosta de ter raiva de alguém. Não seja conivente com um comportamento que considera horrível que tenham com você.

E depois disso tudo, pode até parecer injusto, pode parecer que você “é só mais uma pessoa boazinha vivendo coisas que não dão certo”, mas no fim sempre será você e sua consciência limpa de fazer coisas que gostaria que fizessem com você; será você e a sua certeza de que vai colher cada coisa boa que plantou; no fim será você estando em paz com as suas atitudes e sentimentos.

Pra gente não estragar a vida de alguém, é só a gente não fazer o mesmo que já tentaram para estragar a nossa. Que seja então você a exceção, que seja você que vai perpetuar um jeito bom de lidar e cuidar de alguém – exatamente daquele jeitinho que você gosta que lidem e que cuidem de você. Não seja uma pessoa que você odeia. Seja você, seja exatamente daquele jeitinho como gostaria que fossem com você."

Márcio Rodrigues, tirado daqui

E a propósito, Seja Bem Vindo Outono, já disse que você é meu favorito?






segunda-feira, 13 de março de 2017

Culpa e Desafio


"Admite a tua parcela de culpa.
Não apontes os outros como responsáveis pela tua infelicidade.
Mesmo tendo razão, não acuses,nem alardeies as faltas alheias.
A rigor, ninguém erra porque queira.
Supera os teus possíveis traumas.
Absolvendo aqueles que não puderam oferecer-te mais.
Todos nos movimentamos dentro de certos limites.
Ninguém consegue, sem esforço de auto-superação, dar mais do que recebeu.
A compreensão pode suprir muitas deficiências psicológicas.
Não te cobres em excesso e aprende a ser indulgente.
A aceitação do que és e do que os outros são-eis o teu maior desafio."

Do site Planeta Lindo




quarta-feira, 8 de março de 2017

Lugar de Mulher


"Ou muito me engano, ou as mulheres estão se reproduzindo feito coelhas. Temos irrompido em bando. É muita mulher no mundo. É mulher para tudo que é canto. Uma ocupação epidêmica. 
Alguém irá lembrar que não são tantas assim atuando na política, e tem razão – ainda não somos muitas em plenário - mas tampouco somos maioria apenas em academias de ginástica e salões de beleza. Estamos espalhadas por todos os lugares que interessam, principalmente em ambientes que envolvem arte, cultura, reflexão, conhecimento.

Num espetáculo de teatro, pode reparar: na plateia, só dá mulher. São 10 para cada homem – e acho que estou exagerando na condescendência, talvez sejam 15 para cada um deles. 
Dentro de um cinema, a diferença diminui, mas ainda estamos em maior número (outro dia ouvi uma explicação peculiar: é que mulheres vão umas com as outras ao cinema sem nenhum constrangimento, enquanto que um homem não pode convidar um amigo porque pensarão que ele é viado – não é uma sociedade evoluída a nossa?)
Em exposições: mais mulheres, todas absorvendo novidades.
Em saraus: mais mulheres, todas escutando poesia.

Em palestras de filósofos, escritores, humanistas: mais mulheres, todas de ouvidos atentos.
Em shows: o número tende a se equilibrar, mas ainda mais mulheres. 
Dentro de livrarias: mulheres lendo, publicando, dilatando o intelecto. 
Ganhamos menos que os homens, e mesmo assim reservamos parte do nosso salário (quando é possível) para atender às demandas da nossa sensibilidade, a fim de termos uma existência mais rica, mais estimulante. 

Agora adivinhe quem lota as cadeiras de bares e botecos: ora, mulheres, claro. Depois do teatro, do cinema, da palestra, voltar pra casa? Teria graça. Bora conversar umas com as outras sobre tudo o que foi visto, de preferência com um cálice de vinho ou um chope gelado em mãos. 
Em substituição ao obsoleto “lugar de mulher é na cozinha”, surgiu o libertário “lugar de mulher é onde ela quiser”. Mas tem que querer mesmo. Ainda há quem se acomode num confinamento providencial (um casamento careta, uma religião limitadora, um martírio inventado, umas dores lombares) a fim de declarar-se impedida de ser livre.

Cada um sabe de si. Ninguém é obrigado a realizar desejos que não tem. 
Mas pra quem não cansa de expandir-se, a programação é vasta e é proibido bobear. De tudo o que temos aprendido fora de casa, viver com sabedoria tem sido a melhor lição.

Mulheres, Feliz dia a todas nós! 

Martha Medeiros 


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Doar um pouco de si


"Existem coisas que, sozinhos, não conseguimos mudar. Eu sempre fico triste quando vejo alguém jogado na rua, à margem desse sistema. Mas se eu ficar triste, só triste, eu serei mais uma a aumentar as tristezas no mundo. E a tristeza só consegue nos deixar fracos e inertes. O que o mundo precisa é de um exército de gente feliz, capaz de doar um pouco de si e do que sabe, capaz de fazer a diferença na vida de algumas pessoas. Meus braços não são do tamanho do mundo, mas foram feitos no tamanho exato de abraçar alguém."

Rita Apoena

Cada um doando aquilo que tem de melhor. É nisso que acredito.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Tá tudo bem não ser perfeito


"Vamos, hipoteticamente, dividir o mundo em três grupões de pessoas:

O grupo 1 é aquele que tem as pessoas perfeitas. A galera certinha. Todo o mundo zen. É grupo de gente realizada e bem resolvida. O grupo da retidão. É a galera que anota os gastos em planilha do Excel, coloca CPF na nota, não faz grosseria com a moça do telemarketing, perdoa os chifres do ex e deseja que ele seja muito feliz daqui pra frente amém.

Já o grupo 2 é aquele que não tá nem aí pra hora do Brasil. É o grupo em que vive o ex dos chifres. É a galera que mente na caruda, falsifica carteirinha, bate no carro dos outros, não deixa nem um bilhete e ainda reclama de corrupção. É aquela galera que vai vivendo sem pensar muito no mundo e nos outros porque na real não tem muita capacidade de reflexão.

O grupo 3, por sua vez, é o grupo da meiuca. A galera que tá aí no mundo acertando de vez em quando e fazendo merda de vez em sempre. É a galera que fica meio noiada com as merdas que faz e se esforça pra tentar ser um pouquinho melhor. É a turma que de vez em quando pensa que seria maravilhoso se o ex tomasse uns chifres, mas logo desencana do pensamento vingativo porque tá ligado que atrai coisa ruim. É a galera que até atende o telefone educadamente, mas perde a paciência quando a Cilene liga pela 28ª vez oferecendo cartão do Itaú…

Pois bem. Quero compartilhar umas epifanias com a tchurma do grupo 3.

Então, gente… Não é fácil mesmo não, viu? Eu tô ligada que a gente se esforça, faz terapia, vê vídeo da Monja Coen e recorre à filosofia e às mensagens de gratidão.

Eu tô ligada que a gente se empenha em ser melhor. A gente lê, estuda, reza, medita e se debruça em religião e física quântica, mas eu tô ligada de vez em quando tudo rui.

Eu tô ligada que de vez em quando a gente fica na merda, a gente fica puto, a gente fica louco da vida e fala besteira, faz grosseria e uma ou outra escrotidão. De vez em quando a gente se sente o cocô do cavalo do bandido. De vez em quando não há positividade que dê jeito na gente. De vez em quando a gente morre de raiva, inveja, ciúme, derrotismo e todos aqueles sentimentos que a gente sabe que não são bons não…

Só estou dizendo isso porque acho que essa é uma crise que ultrapassa os limites do meu quarto e esses dias, entre vídeos da monja Coen e as minhas leituras noturnas, eu percebi que isso é só humanidade.

O ser humano é muito mais complexo do que a legendinha da selfie. O que vale é o esforço. Se há a mínima reflexão e o reexame das próprias atitudes, certamente estamos no caminho certo…

Relaxa que lá no grupo 1 é mó solidão…"

 Duda Costa, texto tirado daqui



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O que é a Mulher Selvagem?



"E então, o que é a Mulher Selvagem? Do ponto de vista da psicologia arquetípica, bem como pela tradição das contadoras de histórias, ela é a alma feminina. No entanto, ela é mais do que isso. Ela é a origem do feminino. Ela é tudo o que for instintivo, tanto do mundo visível quanto do oculto - ela é a base. Cada uma de nós recebe uma célula refulgente que contém todos os instintos e conhecimentos necessários para a nossa vida.

Ela é a força da vida-morte-vida; é a incubadora. É a intuição, a vidência, é a que escuta com atenção e tem o coração leal. Ela estimula os humanos a continuarem a ser multilíngües: fluentes no linguajar dos sonhos, da paixão, da poesia. Ela sussurra em sonhos noturnos; ela deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pêlo grosseiro e pegadas lamacentas. Esses sinais enchem as mulheres de vontade de encontrá-la, libertá-la e amá-la.

Ela é idéias, sentimentos, impulsos e recordações. Ela ficou perdida e esquecida por muito, muito tempo. Ela é a fonte, a luz, a noite, a treva e o amanhecer. Ela é o cheiro da lama boa e a perna traseira da raposa. Os pássaros que nos contam segredos pertencem a ela. Ela é a voz que diz, "Por aqui, por aqui".

Ela é quem se enfurece diante da injustiça. Ela e a que gira como uma roda enorme. É a criadora dos ciclos. É à procura dela que saímos de casa. É à procura dela que voltamos para casa. Ela é a raiz estrumada de todas as mulheres. Ela é tudo que nos mantém vivas quando achamos que chegamos ao fim. Ela é a geradora de acordos e idéias pequenas e incipientes. Ela é a mente que nos concebe; nós somos os seus Pensamentos."

Clarissa Pinkola Estés

Do livro que eu estou estudando e AMANDO Mulheres que Correm com os Lobos
Quem tiver mais interesse por esse assunto, temos o blog da querida Cris - Mulheres em Circulo
que faz um trabalho incrível e tem muitas informações sobre o assunto.



terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Gente Light


"Vou ao supermercado e observo o crescimento do setor de dietéticos. Abro revistas e me deparo com as exigências de ter um corpo esbelto. As clínicas de cirurgia plástica estão com a agenda lotada de homens e mulheres esperando sua vez para lipoaspirar, contar, reduzir. A sociedade toda conspira a favor da magreza, e de certo modo isso é positivo, sem magro faz bem para a auto-estima e para a saúde. Mas não tenho visto ninguém estimular outro tipo de dieta igualmente necessária para o bem estar da população. Encontro suco light, chocolate light, iogurte light, mas pessoas light é raridade.
Muita gente se preocupa em ser magro, mas não se preocupa em ser leve. Tem criaturas aí pesando 48 quilos e é um chumbo. São aqueles que vivem se queixando. 

Possuem complexo de perseguição, acham que o planeta inteiro está contra eles. Não se dão conta de sua arrogância, possuem a certeza de que são a razão da existência do universo. Estão sempre dispostos a fazer uma piadinha maldosa, uma fofoquinha desabonadora sobre alguém. Ressentidos, puxam o tapete dos outros para se manter em pé. Não conseguem ver graça em nada, não relevam as chatices comuns do dia-a-dia, levam tudo demasiadamente a sério. são patrulhadores, censores, carregam as dores do mundo nas costas. Magrinhos, é verdade. Mas que gente pesada.

Ser minimalista todo mundo acha moderno, mas ser leve - cruzes! - parece pecado mortal. Os leves, segundo os pesados, não têm substância, não têm profundidade, não têm consciência intelectual: não são leves, e sim levianos. Os pesados não conseguem fechar o zíper das suas roupas de tanto preconceito saltando pra fora.

Não bastasse a carga tributária, a violência, a burocracia e a corrupção, ainda temos que enfrentar pessoas rudes, sem a menor vocação para se divertir. Diversão - segundo os pesados, mais uma vez - é algo alienante e sem serventia. Eles não entendem como alguém pode extrair prazer de coisas sérias como trabalho e família. Não entendem como é que tem gente que consegue viver sem armar barracos e criar problemas.

Eu proponho uma campanha de saúde pública: vamos ser mais bem-humorados, mais desarmados. Podemos ser cidadãos sérios e responsáveis e, ao mesmo tempo, leves. Basta agir com delicadeza, soltura, autenticidade, sem obediência cega às convenções, aos padrões, ao patrões. Um pouco mais de jogo de cintura, de criatividade, de respeito às escolhar alheias. Vamos deixar para sofrer pelo que é realmente trágico, e não por aquilo que é apenas um incômodo, senão fica impraticável atravessar os dias.

Dores de amor, falta de grana e angústias existenciais são contingências da vida, mas você não precisa soterrar os outros com seus lamentos e más vibrações. Sustente seu próprio fardo e esforce-se para aliviá-lo. Emagreça onde tem que emagrecer: no espírito, no humor. E coma de tudo, se isso ajudar."

Martha Medeiros



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Sobre Sonhos e Aceitação

Bom dia,
Compartilhando alguns links legais, pra inspiração e reflexão.

Aqui, uma senhora russa (fofa) de 89 anos que decidiu
viajar o mundo, porque segundo ela, é sua maneira de se sentir viva.
É só clicar no link e se inspirar e (finalmente!) entender que para 
realizar sonhos não tem idade, Baba Lena


sobre aceitação, padrão, falhas e humanidade. Afinal, quem nunca?











segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O responsável pela sua vida é você


"Tanto faz. Não importa o que os seus pais fizeram ou deixaram de fazer no momento deles. No presente, o responsável pela sua vida é você. Você é responsável pelo que você cria para si, pela família que constrói, pelo amor próprio que pratica, pelos abraços que dá em si mesmo, pelo calor de afeto que gera para si e para os que o rodeiam.

Sim, é verdade, o que acontece na infância, na adolescência, e até mesmo na vida adulta com os nossos progenitores nos marca para a toda a vida. No entanto, isso não nos exime da responsabilidade que temos sobre a nossa vida e nossas emoções. O presente é o momento ideal para depurar o nosso passado e desintoxicar a nossa vida sentimental.

Se o frio do afeto paterno ainda é constante, é hora de deixar o casaco de lado e acender a lareira. As desculpas e os rancores não nos permitem viver, e muito menos construir um lar em nosso interior.
Porque um lar é quente, e conviver em permanência com a recordação de uma criança com defeitos só transforma o nosso eu-afetivo em um gélido iglu. Não podemos viver sem termos curado as nossas feridas, sem termos deixado de lado as lâminas das facas…

Todos nós temos, em maior ou em menor grau, marcas de toxicidade na nossa infância. Acontece que em alguns casos o negativo supera o positivo e, portanto, a família se transforma em uma rede complexa de relações, vínculos e sentimentos distorcidos ou ambivalentes.

Há figuras paternas que não são sinônimo de alegria, identidade, união, lealdade, respeito, amor e fidelidade. A elaboração dos vínculos com os nossos pais longe desse ideal nos transforma em caldeirões em ebulição, os quais são gênese de dinâmicas complexas e nocivas.

Talvez à primeira vista nos vejam calmos, mas na realidade, lá no fundo escondemos verdadeiras forças antagônicas que lutam para lubrificar nossas crenças, nossos valores e nossos sentimentos sobre o mundo e sobre nós mesmos.

Na infância, a família é o que representa a nossa realidade e a nossa referência, por isso não é estranho tentarmos repetir certos padrões, mesmo que sejam disfuncionais.
maos-feridas

Os pais são pessoas e, como pessoas que são, cometem erros. No entanto, a dor provocada no filho se mantém. Neste sentido, não importa que afirmemos sem pudor que devemos aprender com os nossos erros, também podemos aprender com os erros cometidos por nossos pais.

Assim, quem não teve a sorte de crescer em uma família totalmente funcional tem que realizar um trabalho duplo para se fortalecer e apreciar o sentimento de amor e respeito em relação a si mesmo e às pessoas ao seu redor. Para alcançar isso, é bom contar com o guia de um profissional de saúde mental, o qual nos ajudará a abrir as vias de comunicação com nós mesmos.

As condutas autodestrutivas e de castigo em relação aos outros devem ser reavaliadas e rejeitadas pelo nosso ‘eu’ do presente, o qual se constitui como um ‘eu’ adulto e com capacidade de discernir sobre a possibilidade de se realizar.

Resgatar a ideia de que somos merecedores de amor e de que podemos nos brindar segurança e afeto incondicional em primeira pessoa é essencial para curar as feridas que as figuras paternas, uma ou ambas, criaram na nossa criança interior.
menina-triste-sozinha

Infância é destino, diria Freud; mas o certo é que não podemos viver indefesos toda a nossa vida sob a desculpa de que tivemos uma infância complicada e longe de ser a ideal. Devemos interiorizar a mensagem de que não importa o quão destrutivas tenham sido as nossas relações entre pais e filho, as perspectivas sobre o nosso futuro correspondem a nós.

Este ponto é realmente um desafio ambicioso, pois requer uma grande vontade de trabalho interior para rejeitar os julgamentos parentais que vimos alimentar (ou destruir) a nossa autoestima a vida inteira.
Seja quem for, sentir-se valioso ou merecedor da felicidade e do amor é um pilar fundamental para a sua capacidade de desenvolvimento de vida. Isto requer que você seja altamente empático ou empática consigo, reconhecendo através dessa empatia o direito de viver a sua própria vida da forma que você escolher."